Violência contra jornalistas cresce durante pandemia na Venezuela



No primeiro semestre deste ano, a Venezuela registrou 625 denúncias de violações dos direitos humanos e liberdade de expressão pelas forças de segurança do governo de Nicolás Maduro. Destes, 240 casos foram casos envolvendo o trabalho da imprensa. A situação dos jornalistas no país se agravou ainda mais com a pandemia do novo coronavírus.

Segundo organizações de defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão, 2019 foi o segundo ano mais violento para a imprensa no país, quando 79 profissionais foram presos ou detidos e 35 veículos de comunicação foram fechados.

De acorco com um levantamento da organização não-governamental Espacio Público, uma das maiores e mais importantes da Venezuela, somente nos seis primeiros meses deste ano, pelo menos 206 profissionais da imprensa foram vítimas de algum tipo de violação ao cobrir a crise da Covid-19.

De acordo com o diretor da organização não-governamental Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, além dos jornalistas, profissionais de saúde também têm sofrido repressão para não dar informações sobre a situação da pandemia no país.

“A Covid-19 se transformou na coisa perfeita para que o regime reprima… contra a população, contra os direitos básicos e as liberdades fundamentais. Essa situação está se incrementando, se fechando mais espaços durante a pandemia.”

“A liberdade de expressão na Venezuela continua sendo ameaçada. Estamos vendo com enorme preocupação casos de detenções e processos arbitrários contra jornalistas, contra profissionais da saúde incluindo médicos, que denunciam a realidade em que vive o país”, diz Vivanco.

2019: 2º pior ano para a imprensa, diz ONG

Durante 2019, foram registrados 467 casos em que o direto à liberdade de expressão foi violado na Venezuela, o segundo ano mais violento da história para os profissionais de imprensa do país. O número representa um aumento de 21% comparado ao ano anterior. Os dados são da ONG Espacio Público e do Colegio Nacional de Periodistas.

“Jornalistas são considerados inimigos, todo aquele que faça críticas, sejam defensores dos direitos humanos, sejam jornalistas ou líderes sociais que não têm uma posição complacente com o governo será considerado inimigo”, explica o diretor da ONG, Carlos Correa.

A violência atinge profissionais de diferentes meios de comunicação, jornalistas de pequenos e grandes veículos e até os mais reconhecidos do país.

Luís Olivarrieta é um dos jornalistas mais famosos da Venezuela e afirma que já foi vítima do estado. Ele recorda o dia em que sofreu uma das maiores agressões.

“Estava trocando os microfones quando eu recebo uma pancada na cabeça. O que eu fiz foi correr. Eles subiram nas motos e começaram a me tirar tudo que eu tinha na jaqueta e eu saí correndo, mas sabia que estava sangrando, porque tinha sangue em toda a parte. Me atingiram com tiros nas pernas, a guarda nacional”, relembra.

Equipamento de proteção para jornalistas

Equipamento de proteção para jornalistas usado na Venezuela

Foto: Renan Fiuza/CNN

Vestidos para a guerra

Colete à prova de bala, capacetes, máscaras contra gás e óculos de proteção. É assim que os jornalistas na Venezuela saem às ruas para coberturas diárias.

A jornalista Mildred Manrique diz que é como “se vestir para a guerra”, mas destaca que, ultimamente, utilizar os itens se segurança, ao invés de proteger, tem chamado ainda mais atenção de adeptos do governo e das forças de segurança.

“Polícia e guarda: esses são os primeiros que os jornalistas precisam tomar cuidado. Se eles olham isso que está atrás do colete, que é o nome da imprensa, mais rápido eles vão te atacar. É inacreditável, mas é assim”, conta ela.

Muitos jornalistas contam que preferem evitar que seus familiares acompanhem o trabalho dele por conta da violência. Nurelyin Contreras, repórter de um portal de notícias de Caracas, estava ao vivo quando foi agredida por um grupo de apoiadores do presidente Nicolás Maduro no aeroporto de Caracas.

Ela e os demais jornalistas cobriam a chegada de Juan Guaidó, presidente autodeclarado da Venezuela.

A repórter foi atacada por um grupo de mulheres com socos e mordidas, e chegaram a lhe arrancar cabelos. A mãe viu tudo ao vivo pela televisão e ficou desesperada por notícias da filha.

“Me agarraram muito rápido pelo cabelo, o que eu pude fazer foi abaixar a cara evitar que me dessem golpes na cara. Me morderam um dedo e me arrancaram muitos cabelos. Tudo aconteceu na frente da guarda e ninguém fez nada. Se não fossem os outros colegas jornalistas, teria sido muito pior”, lamentou Nurelyin.

CNN Brasil




Em cumprimento à Legislação Eleitoral, o Portal Patosonline.com não publicará os comentários dos leitores. O espaço para a interação com o público voltará a ser aberto logo que as eleições de 2020 se encerrarem.