Reclamação de intolerância religiosa marca primeira rodada do Paraibano



A primeira rodada do Campeonato Paraibano 2020 já ficou marcada com a primeira polêmica da temporada.

É que na terça-feira (21), o massagista Edson Boca, do São Paulo Crystal, declarou ao portal Voz da Torcida que foi vítima de intolerância religiosa por parte de um representante da Federação Paraibana de Futebol (FPF).

Na ocasião, quando a equipe de Cruz do Espírito Santo estreava na elite estadual e perdendo por 2 a 0 para o Botafogo-PB, Boca usava trajes que remetiam a religiões de origem africanas.

– Fui colocar água para o meu goleiro e quando voltei, ele falou que eu não podia trabalhar com a roupa que estava vestindo. “Você não tem que trabalhar com essa roupa, não. Tem que trabalhar com a roupa do seu time”. Eu disse a ele que sou uma figura folclórica, que sempre trabalhei assim e que era da Bahia. Ele respondeu que aqui (na Paraíba) não podia. “Eu não quero saber, não. Aqui não é seu estado, você trabalha com essa roupa no seu estado. Aqui a gente não aceita. E vá lá ‘pro’ seu banco e fique sentado”. Daí eu fiquei com vergonha, porque eu me senti humilhado. Me senti humilhado mesmo. Isso nunca aconteceu comigo, foi a primeira vez. Ele falou que eu não podia trabalhar com essa roupa porque era roupa de macumbeiro – denunciou o massagista.

Edson Boca tem 24 anos de profissão e um vasto currículo por outros clubes no Brasil. Em todos os anos de trabalho, o massagista usou seus trajes e sempre fez questão de exaltar o seu orgulho de ser ‘filho de Santo’.

O outro lado

O funcionário em questão é o Arthur Alves Júnior, presidente da Comissão de Arbitragem da FPF. Em contato com a reportagem, ele negou que tenha feito qualquer tipo de comentário preconceituoso.

– Orientei o massagista. Ele, durante o jogo, foi levar água para o goleiro. Falei pra ele que ele não podia fazer isso. Foi simplesmente uma orientação técnica de como sair do banco. Não comentei (sobre a roupa). Mas tanto a roupa dele quanto a roupa do massagista do Botafogo-PB, que estava de calça jeans, não pode. Alguns torcedores disseram que eu tinha sido racista, mas eu fui lá conversar com ele. Tem que ter um traje esportivo. É até melhor para o deslocamento dele. Depois do jogo eu conversei com ele falando “olhe, eu estou conversando com o senhor a título de orientação para que sua equipe não seja punida”. Eu respeito todas as religiões – argumentou Arthur Alves.

Não há nenhum tipo de regulamento definindo ou limitando trajes para membros de comissões técnicas. Arthur descreveu ainda que torcedores questionaram a sua conduta, mas ele negou que tinha tido algum tipo de intolerância, e que o massagista poderia ter sido expulso.

Durante a partida nenhum membro da arbitragem, em qualquer momento, reclamou de conduta ou da vestimenta de Edson Boca, sinalizando ou ameaçando com expulsão.

O diretor jurídico do São Paulo Crystal, Eduardo Araújo, declarou que o massagista pediu autorização para usar as vestes, o que de pronto foi aceito pela direção da equipe.

O dirigente lembrou ainda que não existe nenhuma proibição na legislação desportiva sobre o caso.

A Constituição brasileira, em seu 5º artigo, inciso VI, garante o direito ao culto religioso, esclarecendo o livre exercício de culto e a proteção a esses locais, classificando então o preconceito e a intolerância religiosa como crimes previstos no Código Penal.

Também está assegurado que o Brasil é um Estado Laico e, sendo assim, não existe a obrigatoriedade de seguir algum dogma religioso específico.

O irônico detalhe é que além de marcar o início do Campeonato Paraibano em 2020, o dia 21 de janeiro é o dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

A data é lembrada desde 2007, quando foi oficializada como lei federal.


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