ColunistasLuiz Gonzaga Lima de Morais

Quem tem medo de Bolsonaro?

ÓTICAS GUIMARÃES

Há um temor generalizado, em parte da população, de que os atos políticos deste Sete de Setembro, promovidos por apoiadores de Bolsonaro e incentivados por ele próprio, resultem em um golpe militar, que nos leve a um Estado autocrático presidido por ele.
Reportam-se estas pessoas, e há um estímulo intencional dos partidários políticos do presidente, ao golpe militar de 1964. Só os desconhecedores da História do Brasil ou que estejam mal-intencionados é que podem pensar assim.
A chamada Revolução de 1964 foi feita, num ambiente político altamente conservador, contra um presidente que anunciava ou estimulava atos e fatos que mexiam com os interesses conservadores.
O entorno de João Goulart, de características de esquerda, defendia, por exemplo, a reforma agraria, o que certamente desagradava a todos os fazendeiros do país.
Lideranças ligadas a Jango incentivavam a indisciplina entre as baixas patentes das forças armadas. Houve até um motim dos marinheiros, estimulado por seus partidários, o que alarmava as patentes mais elevadas das “três armas”, para quem a disciplina das tropas é intocável.
A burguesia industrial temia as estatizações defendidas pelos partidários do presidente.
Brizola, cunhado de João Goulart, defendia o fechamento do Congresso Nacional.
A Igreja Católica, à época amplamente conservadora, temia a implantação do comunismo, por conta das posições de esquerda de Goulart e seus apoiadores.
Havia uma quase unanimidade entre as altas-patentes das Forças Armadas contra João Goulart, com exceção daqueles que o acompanhavam no Poder. E a maioria destes escalões militares tinham controle de suas tropas.
Foram todos estes descontentamentos contra Goulart que levaram ao golpe militar. Ou ao contragolpe como querem alguns.
São apenas alguns aspectos históricos que queremos lembrar, para não nos alongarmos demais. O golpe foi dado contra o presidente da República, eleito democraticamente como vice-presidente de Jânio Quadros, que havia renunciado.
Vejamos agora que o quadro é completamente diverso na atualidade.
Primeiro o temido golpe militar de agora interessa ao presidente, que vive insinuando o seu interesse nesse sentido, embora diga uma coisa de manhã, diante dos seus apoiadores, e desdiga à tarde diante do resto da nação.
A maioria da Igreja Católica e os grandes empresários têm se manifestado em defesa da democracia e dos poderes Judiciário e Legislativo ameaçados por Bolsonaro.
Não há manifestação de grandes lideranças militares, hoje muito menos visíveis do que em 1964, em favor das ameaças bolsonaristas.
Bolsonaro e seus apoiadores têm insistido em incentivar a indisciplina dos policiais militares contra os seus governadores, num indicio claro de que Bolsonaro não têm o apoio maciço das Forças Armadas, já que se tivessem o apoio maciço daquelas não precisariam das policias militares, nem cortejariam o seu apoio.
Agora o presidente é que afronta o Legislativo e o Judiciário pois estes não se curvam aos seus interesses. Pelo menos o Senado e parte significativa da Câmara.
Por fim, os atos convocados para o Sete de Setembro não visam defender os interesses da Democracia, pois só se faz democracia com a união dos três Poderes e Bolsonaro briga com os outros poderes da República.
?Quem está mobilizado para o Grito de Bolsonaro? Setores rurais que se beneficiam de uma exploração predatória dos meios naturais, que desejam as terras indígenas e a depredação da natureza.
Os caminhoneiros que defendem os seus próprios interesses, nem sempre condizentes com os interesses da população.
Os que querem se armar para defender os seus interesses contra os interesses das massas trabalhadores.
Uma parte dos empresários que se locupletam do suor do trabalhador sem reconhecer que, sem o trabalhador, o capital é infértil.
Parte dos militares da reserva que, exercendo cargos no governo, estão desfrutando de altos salários, acumulando o que recebem como militares, com o que ganham como servidores comissionados.
Além, daqueles militares da reserva que estão recebendo facilidades para ganharem dinheiro em negócios nem sempre completamente legais. ,
Bolsonaro tem o apoio de setores evangélicos, ligados às igrejas neopentecostais, para quem o isolamento social exigido pelo combate à pandemia e tão combatido por Bolsonaro, dava às suas igrejas prejuízo no apurado diário e no lucro mensal pela ausência dos fiéis doadores.
Por fim, os que apoiam Bolsonaro, não estão apoiando um presidente que defende os interesses da nação, mas um que defende os seus próprios interesses.
Bolsonaro, só não vê quem for cego, está muito mais preocupado com o desgaste nacional que ameaça a sua reeleição. Está preocupado com os seus interesses contrariados. Está mais preocupado com os processos que ameaçam os seus filhos. Está mais preocupado por que não pode tudo, pois o Congresso e Judiciário, no exercício de sua destinação constitucional, estão impedindo as barbaridades que seu Governo quer perpetrar.
Bolsonaro, com o seu Grito, quer impressionar uma população que, sentida com a morte de mais de meio milhão de parentes e amigos, não concorda com o seu Governo.
Bolsonaro quer impressionar um povo que viu a pandemia lhe roubar os empregos sem que o Governo tenha sido competente para lhe garantir além de um auxílio emergencial que não lhe garante sequer a alimentação básica.
Bolsonaro quer impressionar os empresários que sabem que sem seus negócios nem eles ganham dinheiro, nem seus empregados têm trabalho condigno. E que têm a visão de que o país precisa é de paz.
Bolsonaro quer impressionar os eleitores que sentem que no passado viveram muito melhor do que hoje, apesar da pandemia. Pandemia contra a qual o governo Bolsonaro, ao invés de atenuá-la, só fez agravá-la com o negacionismo, com a divulgação de tratamentos ineficazes e com o mau exemplo de sequer usar uma máscara.
Bolsonaro quer aparentar que tem nas ruas um apoio que realmente não tem. Seus atos, têm partidários seus, atraídos por alguma vantagem, mas não tem o povo, não tem os eleitores, que ele quer que pensem que ele tem gente, suficiente para ganhar uma eleição, que ele, na realidade, vai perder por uma grande diferença.
Ele quer que se pense que ele tem força suficiente para afrontar o Congresso Nacional e o Judiciário e que pode fazer o que bem quiser no país e todo muito aceitar calado.
Tenho certeza do que o povo brasileiro não se deixará impressionar pelo Grito de Bolsonaro. Que não vai dar a Bolsonaro o gosto de achar que é o salvador desta pátria que ele ameaça afundar.
O apoiador de Bolsonaro que aparentemente enche as ruas em alguns dos atos que promove, é muito menor do que o eleitorado silencioso, que não vai às ruas com medo de retaliações, mas guarda o voto secreto para dar a resposta em 2022. Voto que ele queria impresso para tentar chantagear quem pretendesse votar contra ele, alegando que descobriria quem desse o voto contrário.
Que me perdoem se me alonguei demais. Mas ficam aqui alguns argumentos para você resolver se vale a pena ouvir o Grito de Bolsonaro ou o Grito dos Excluídos, por coincidência marcados para a mesma data.

LGLM

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