Patos lembra neste dia 24 de março, dez anos sem o professor Virgílio Trindade. Lembrado como um dos mais completos profissionais que já atuou em nossa cidade, Virgílio era professor, desportista, político, radialista, músico, enxadrista, entre outros.

Virgílio nasceu em 1940 no município de Piancó. Com a morte do pai foi morar em João Pessoa, onde militou em vários veículos de comunicação, a exemplo do Correio da Paraíba, Rádios Tabajara e Arapuan, e no Jornal A União.

Em Patos, coordenou o jornalismo da Rádio Espinharas, onde fundou o programa radiofônico “RADAR”, no ar até hoje. Era um homem eclético, foi técnico de futebol, professor, radialista, cantor e compositor e político. Onde chegou a exercer o cargo de prefeito interino de Patos.

Neste sábado, 23 de março, os filhos do professor Virgílio, Ely Jorge Trindade – Juiz de Direito, e professora Roberta Trindade, concederam entrevista ao jornalista Marcos Oliveira (programa Radar), onde explanaram um pouco sobre a vida do professor Virgílio.

Ao final eles comentaram para o Patosonline.com sobre esse momento, e o significado para a família:

 

Veja o vídeo:

 


 O Patosonline.com, traz agora um texto produzido pelo nosso colunista, jornalista Luiz Gonzaga Lima de Morais, descrevendo sobre o fato e contando um pouco sobre a história desse grande homem.

Faleceu, na última terça-feira, em Patos, o professor, jornalista, contador e escritor Virgilio Trindade Monteiro. Nascido em 09 de junho de 1940, na cidade de Piancó, Virgílio Trindade fez o curso primário lá mesmo em Piancó, no Grupo Ademar Leite, indo depois estudar na Escola Técnica da cidade de Bananeiras, onde cursou o então curso ginasial, concluído em Piancó, no Ginásio Santana. Em 1958 foi para João Pessoa, continuar os estudos e trabalhar no Moinho Teone, do piancóense (nascido no distrito de Santana de Garrotes) Teotônio Neto. Em João Pessoa, Virgilio foi atraído pelo rádio começando na Rádio Arapuã, sob a direção de Otinaldo Lourenço, lembrado por ele como o seu grande professor. Otinaldo levou-o para a Rádio Tabajara, onde fez jornalismo e crônica esportiva. Passou também pela União e pelo Correio da Paraíba.

        Com a morte de seu pai, Zé Trindade, em 1963, a família toda foi morar em João Pessoa. Na época Virgílio trabalhava no Banco do Estado da Paraíba. Como dona Cecília não se deu na capital, voltaram todos para o sertão, indo morar em Patos, onde Virgílio assumiu a subgerência do Banco. A experiência no rádio levou-o para a Rádio Espinharas, onde militou de 1963 a 1964.

Uma tentativa de interferência política na sua atuação no Banco, que pertencia ao governo do Estado, desgostou Virgílio que não aceitou a transferência para João Pessoa, tendo deixado o Banco. Acabou indo para a capital do Estado, no início de 1964, tendo trabalhado no rádio enquanto terminava o curso de contabilidade na Academia de Comércio Epitácio Pessoa. Ao concluir, voltou para Patos onde, em 08 de dezembro de 1965, casou com a prima Maria José Trindade e, juntos, instalaram, no início de 1966, o escritório de contabilidade que mantém até hoje. Na mesma época, Virgílio voltou a militar no rádio, fazendo jornalismo e crônica esportiva, na Rádio Espinharas, como comentarista da equipe da emissora, comandada à época por José Augusto Longo.

Fundada a Faculdade de Economia em 1969, Virgílio ingressou na primeira turma, formando-se em 1972 e tendo se tornado professor em 1973, atividade que exerceu até dias atrás. Em 1982, saiu da Rádio Espinharas, indo trabalhar, como diretor artístico, na Rádio Itatiunga, onde criou o seu programa Radar, desde o início um dos programas de maior audiência do rádio sertanejo.  Uma tentativa de interferência na linha do seu programa o levou a sair da emissora, voltando para a Espinharas, onde teria a independência de que precisava para fazer o seu Radar. Aqui fez o programa, que se transformara na maior audiência semanal da Espinharas, até uma semana antes de morrer. Além das atividades no jornalismo e na crônica esportiva, ele estimulava os artistas da terra no seu programa Astros em Desfile, pelo qual passaram centenas de artistas locais nos últimos trinta anos, inclusive fazendo apresentações em cidades vizinhas. Sambista apaixonado, enfrentava também o microfone, cantando sucessos próprios e alheios. No programa de hoje tocamos algumas das músicas que ele gostava de cantar.

A segurança com que fazia os seus comentários esportivos e a própria prática do futebol que fazia na condição de amador terminou por levá-lo à função de treinador. Fez muito sucesso na escola de futebol que foi o Nacional de Patos, na década de setenta. Treinou também o Esporte e o Treze de Campina Grande. Apesar do seu estilo franco e da disciplina que impunha era adorado pelos jogadores. Dezenas deles foram lhe levar o último adeus.

O jornalismo radiofônico levou-o a colaborar com quantas revistas e jornais se editaram em Patos, nos últimos quarenta anos. Suas crônicas eram disputadas por todos. Tinha o admirável poder da concisão exigida pela crônica, onde narrava fatos presentes ou reminiscências, cheios de ironia e de toques sentimentais. Reuniu uma centena destas crônicas no livro Relíquias, que publicou em 2002. Escreveu também uma biografia do grande educador e investidor patoense José Gomes Alves: O Amigo Zé Gomes. Segundo nos consta ele concluíra, recentemente, um romance baseado nos fatos que cercaram a morte do Padre Aristides na cidade de Piancó. Tomava as últimas providências para a publicação do romance. A família certamente o levará à publicação, para o que, esperamos, contará com o apoio dos que fazem cultura em Patos.

        Como contador era respeitado pela sua lisura, segurança e correção, sendo franco o necessário para descartar um cliente que quisesse contrariar a legislação fiscal ou trabalhista. Disso damos testemunho.

        Apaixonado pela política, foi vereador em Patos e vice-prefeito na administração de Rivaldo Medeiros. Assumiu a prefeitura por alguns meses, durante período em que Rivaldo esteve doente, inclusive internado na capital paulista. Seu estilo franco e a agilidade que imprimiu à administração, procurando resolver tudo sem enrolação, teria abreviado a convalescência do prefeito, temeroso de um vice que “mostrava serviço”. Voltou a tentar cargos políticos em outras eleições, concorrendo à prefeitura e à vereança em Patos, mas não conseguiu mais espaço. Era sério demais para a política que se passou a praticar. Abandonou a política, talvez decepcionado, mas sem ressentimentos. Continuava amigo de todos, adversários, se é que os tinha, e correligionários. E fazia um jornalismo desapaixonado que lhe garantia audiência com a credibilidade de que pouquíssimos dispõem. Nunca vendeu a sua opinião, apesar da longa militância política. Seu Radar era referência em toda a região alcançada pela Rádio Espinharas e tinha uma inabalável audiência.

        Para os novos e velhos jornalistas Virgílio era sempre uma referência. E um exemplo para todos nós. Não se furtava a orientar quem buscasse apoio na sua experiência e era franco tanto com os novos como com os velhos amigos. Que o digamos todos os que convivemos com ele. Seu escritório era uma verdadeira agência de notícias, aonde acorriam diariamente jornalistas de rádio e jornal em busca de novidades. Quem buscava novidades deixava as suas novidades e ali se alimentava o jornalismo patoense. Nos últimos tempos deixara a crônica esportiva, mas continuava a acompanhar o futebol e não se furtava de comentar com os amigos.

        Foi durante algum tempo, juiz conciliador no Juizado de Pequenas Causas, onde seu equilíbrio e ponderação marcaram época. Granjeou o respeito de magistrados, dos funcionários e das partes que iam ali apresentar suas causas. O respeito de que desfrutava facilitou muitas conciliações.

        Nos últimos anos, tinha problemas de saúde, mas se tratava cuidadosamente, sob a vigilância de dona Maria José e dos filhos. Sua morte, depois de rápida doença, surpreendeu a todos. Trabalhou no escritório até na manhã do dia em que morreu.  

        Virgílio Trindade faleceu na tarde da terça-feira, 24 de março, no Hospital São Francisco, de problemas cárdio-respiratórios. O corpo foi velado no Centro Cultural Amaury Carvalho, na Praça João Pessoa, como ele fazia questão de chamar. Queriam velá-lo na Câmara, mas a família preferiu o Centro Cultural onde os inúmeros amigos de Virgílio teriam acesso mais fácil. Ali, milhares de patoenses e pessoas vindas de municípios vizinhos foram lhe levar o último adeus. O sepultamento foi realizado no final da tarde de quarta-feira, 25 de março, no Cemitério de Santo Antônio. Uma verdadeira multidão acompanhou-o à ultima morada, apesar da ameaça de chuva. Ao pé do túmulo, amigos e parentes fizeram-lhe uma última homenagem. Aqui no programa vamos registrar o que disseram seu irmão o Professor João Trindade, em nome dos irmãos, e o Dr. Eli Jorge, em nome de Dona Maria José, filhos, genros e netos.

        A Rádio Espinharas fez uma programa especial desde o final da tarde da terça-feira, dando oportunidade a que amigos, colegas, políticos locais e pessoas do povo dessem o seu depoimento sobre o Virgílio Trindade que conheceram. Ontem, sua filha, a professora Roberta Trindade ocupou o programa Radar para fazer o agradecimento da família e entregar à direção da Rádio Espinharas o espaço que ele ocupou por tantos anos. O programa Radar que era dele e era a cara dele, passará a ser apresentando pela própria emissora, através de profissional que está sendo escolhido pela direção.

        Queremos dedicar a ele, o programa de hoje. Ele foi o grande incentivador desta REVISTA DA SEMANA desde que começamos a apresentá-lo em 1972. Foi ele que sugeriu o nome e a característica (música que abria o programa nos velhos tempos): Bom Tempo, de Chico Buarque de Holanda. E durante quase quarenta anos, continuou colaborando com informações, sugestões e críticas, com a sinceridade que era uma das suas marcas registradas.

        A dona Maria José, inabalável no seu amor e dedicação, ao Dr. Eli Jorge que muitas vezes deixava as suas funções de juiz de Direito em Campina Grande para vir lhe dar apoio; à professora universitária Roberta Trindade que nunca saiu de perto da mãe e do pai, dividindo os cuidados da própria casa, do esposo e das duas filhas e as atividades de professora e consultora, para apoiar a mãe e o pai; ao genro e quase terceiro filho Genário, à nora e às netas, a Daguia e Fátima, colaboradoras e quase filhas, as condolências do programa.

 

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Texto/Luiz Gonzaga Lima de Morais - Revista da Semana