Ela tem 42 anos e há 16 anos convive com a angústia de saber que os assassinos do seu marido estão soltos. Maria Gorete Rodrigues Porto se emociona várias vezes durante essa entrevista. Não segura as lágrimas ao lembrar os momentos terríveis que vivera. Paulo Porto foi morto no dia sete de dezembro de 1992 e o seu assassinato, junto com o da Menina Francisca em 1923 e o dos irmãos Fabiano e Fábio em 2004, formam a tríade dos crimes mais covardes e perversos da história de Patos.

O jornalista Damião Lucena está escrevendo um livro contando tudo o que sabe, e com a experiência de quem viveu o momento e acompanhou cada acontecimento, desse crime até hoje envolto em mistérios e interrogações. Patos aguarda ansiosa a publicação desse livro.

Paulo Porto foi um dos maiores comunicadores da história de Patos. Trabalhava na Rádio Espinharas e dominava a audiência vespertina em todo o sertão com o seu programa “Show da Tarde”. Sua morte ainda está engasgada, atravancada na garganta de toda a

população de Patos.

Wandecy Medeiros

PATOSONLINE: Qual a lembrança mais presente que você tem de Paulo Porto?

Maria Gorete Rodrigues Porto: Lembro do dia em que nos conhecemos. Eu fui casada com Paulinho durante dez anos e tivemos dois anos de namoro. Conheci primeiro a voz dele como radialista, através do programa de Adalberto Pereira. Paulinho fazia uma pequena participação no programa de Adalberto Pereira, chamada “Os mexericos do Paulinho”, e eu gostava de ouvir a voz dele. Já gostava dele como locutor e o conheci por acaso.

PATOSONLINE: Como foi?

MGR: Eu fui contemplada no programa dele com um livro e uma camiseta e fui pegar meus prêmios. Aproveitei minha ida lá para saber quem era Paulo Porto. Chegando lá perguntei a alguém por Paulo Porto e me disseram: “Quando subia as escadas você não passou por nenhuma aranha caranguejeira se arrastando pelo chão?” Eu fiquei admirada. Imaginava que ele fosse bem diferente. Fui falar com ele e pegar o livro e a camiseta que eu ganhei como prêmio por ter feito um slogan para a “Farmácia dos Municípios”. Pedi desculpa por ter passado por ele sem o cumprimentar e disse que tinha vontade de conhecê-lo. Ele disse: “Pois tá aqui Roberto Carlos, você é Miriam Rios?”.

PATOSONLINE: E como foi que o Roberto Carlos conquistou a Miriam Rios?

MGR: Eu me identifiquei dizendo que era a garota que havia ganhado o livro e a camiseta e ele ficava me paquerando. Aí ele disse: “O livro está aqui, mas a camiseta você tem de ir pegar lá em casa”. Daí eu fui e ficamos amigos. Da amizade nasceu um namoro de dois anos. Eu tinha 16 anos e ele 25 anos. Fomos casados por dez anos. Quando ele morreu eu tinha 26 anos e ele já estava perto dos 36.

PATOSONLINE: Como era Paulo Porto?

MGR: Era uma pessoa de cabeça muito boa. Conversa excelente e muita dedicação a tudo o que fazia. Eu cheguei a brigar com pessoas que ficavam com gracinhas por ele ser deficiente. Ele também não gostava que ninguém ficasse penalizado por sua condição física, pelo contrário, ele era quem se penalizava das pessoas. Paulinho não se sentia deficiente.

PATOSONLINE: Quantas filhas você teve com ele?

MGR: Tive duas filhas. A mais velha, Thâmara Rodrigues Porto, está com 22 anos e tinha nove anos quando ele foi assassinado (Nota: essa entrevista foi realizada em março de 2006 e no dia nove de outubro do mesmo ano, Thâmara faleceu, vítima de aneurisma cerebral). A mais nova, Thays Rodrigues Porto, tem 20 anos e na época tinha cinco anos.

PATOSONLINE: Como suas filhas reagiram à morte do pai, elas ainda lembram?

MGR: Lembram diariamente. Eu nunca deixei que elas esquecessem da imagem do pai. Eu sempre passei fita de vídeo quando elas eram pequenas para que elas pudessem ver o pai delas.

PATOSONLINE: Você tem alguma profissão hoje?

MGR: Tenho uma lanchonetezinha e sempre vendo lanches nas festas de Patos. Eu sempre gostei de trabalhar. Mesmo quando Paulinho era vivo eu já trabalhava. Vendia lanches, mas a gente vivia bem só com o salário que ele recebia da rádio. Infelizmente ele inventou de ingressar na política contra a minha vontade. Ele entrou na política e deu no que deu. Na primeira eleição que disputou ele perdeu por nove votos e na segunda, em 1992, ganhou com uma boa aceitação popular e com o slogan “Um deficiente eficiente”. Ele chegou ainda a ser diplomado vereador, mas foi assassinado antes de assumir. Tenho certeza que ele iria ser um bom político.

PATOSONLINE: E depois da morte dele você conseguiu receber alguma pensão da Câmara Municipal de Patos?

MGR: Minha filhas eram crianças e na época eu lutei muito para conseguir uma pensão dele como vereador, mas não consegui, pois ele não chegou a ser vereador de fato, mas eu recebo dois salários da Prefeitura que a saudosa doutora Geralda Medeiros deixou em decreto assinado e o prefeito Ivânio Ramalho aprovou junto com os vereadores da época. Até hoje eu recebo esses dois salários. Ele era radialista e trabalhava na Rádio Espinharas, por isso eu recebo também um salário mínimo do INSS. Eu sustentei e sustento minhas filhas com esses três salários, graças a Deus.

PATOSONLINE: Você se lembra da última vez em que viu Paulo Porto vivo?

MGR: Foi o seguinte. Conversamos como de costume no almoço e ele saiu de casa para trabalhar ao meio-dia. Fiquei em casa. A gente tinha combinado de ir a uma seresta com “Ninida de Santa Luzia”, em São Mamede, na noite daquele dia. Às três horas eu fui na “Casa do Sorveteiro”, que era de propriedade de Alba Liene, a mulher que foi encontrada morta com ele e que era amiga da gente. Eu disse a Alba que estava indo na rádio conversar com Paulinho. Ela disse: “Ligue pra ele dizendo que Alexandre (sobrinho de Paulo Porto falecido há três anos e meio de ataque cardíaco) vai pegá-lo às cinco horas e venha comigo entregar uma mercadoria e pegar uma roupa na casa da costureira”. Eu fiz o que ela pediu, liguei pra ele e fui com ela entregar uma mercadoria e depois fomos no Bivar Olinto pegar uma roupa na casa de uma costureira. Na volta ela me deixou em casa e estava combinado dela ir para a seresta com a gente. Ela me deixou na minha casa com os três filhos dela para eu cuidar. Fiquei com cinco crianças em casa: dois meus e três dela. Ela foi embora e foi a última vez que eu a vi. Nisso eu fiquei esperando Paulinho. Ele havia me dito que ficasse arrumada, pronta para ir para a festa. Eu fiquei esperando, esperando e nada. Madrugada veio, madrugada foi e eu não conseguia dormir. Da minha casa dava para escutar a festa da Conceição que estava havendo e eu escutava o arremate de galinhas. Ouvi o locutor dizer coisas do tipo: “Essa galinha foi arrematada por Gilvan Freire”. Quando eu ouvi isso me acalmei, pois imaginei que Paulinho estivesse nessa festa, pois além de amigo, ele era também parente de Gilvan. Eu morava longe, mas conseguia ouvir tudo. Fiquei conformada achando que ele estava com Gilvan Freire, mas mesmo assim não conseguia dormir.

PATOSONLINE: Ele sumiu numa Segunda e só apareceu na Terça. Não foi isso?
MGR: Ele sumiu na Segunda e a Terça era um feriado da Padroeira Nossa Senhora da Conceição. Deu cinco horas da manhã e eu vi o povo todo passando, e nada. Aí passou um senhor numa bicicleta e eu perguntei a ele sobre a festa e ele disse que a festa já havia acabado e não tinha mais ninguém. Peguei minha bicicleta e fui pra casa das minhas cunhadas pensando que ele tinha dormido lá. Nenhuma delas havia visto o Paulinho. Uma delas, a Célia, disse: “Aquele bicho sem vergonha deve está por aí em algum canto”. Uma outra disse: “Isso é coisa da família Porto mesmo, ele deve tá por aí namorando”. Deu nove horas da manhã e eu perdi o controle. Liguei para o saudoso Edileuson Franco. Todos na Rádio Espinharas estavam preocupados também. Eu disse a ele que Paulinho não era de fazer esse tipo de coisa e ele me apavorou mais ainda dizendo: “Gorete, do jeito que as coisas estão, não espere notícia boa não”. Fui à casa de Alba e a empregada, Fatinha, disse que Alba também havia desaparecido e que ficou toda a noite esperando por ela. Fui pra casa nervosa e fiquei aguardando notícias. De repente um rapaz da Polícia Civil chegou lá em casa, preocupado também e perguntando se eu sabia alguma coisa do sumiço dele. Afirmei que nada sabia. Estava debilitada por não haver dormido na noite anterior e com os nervos à flor da pele. Liguei para um cunhado de Alba e ele disse que tinha acabado de saber que a pampa dela foi encontrada num sítio chamado Aroeiras. Fui à delegacia. O delegado já estava sabendo do sumiço dele. Ele me perguntou se Paulinho tinha uma sandália “ryder” cor preta e azul. Eu disse que sim. Ele pegou uma sandália e perguntou: “É igual a essa aqui?” Eu disse que sim e perguntei se Paulinho havia aparecido. O delegado disse que não, mas explicou que as sandálias foram escontradas na pampa, no sítio Aroeiras. Disse também que não havia sinal de sangue, apenas que a pampa estava arranhada. Fui para casa sem saber o que fazer da vida.
PATOSONLINE: E como foi que você recebeu a fatídica notícia?
MGR: No início da noite chega um sobrinho de Paulinho lá em casa, o Eduardo. Ele entra chorando, atira o capacete no chão e diz que vai se suicidar porque Paulinho foi encontrado morto a pauladas e pedradas no aeroporto de Patos. Corri para o Hospital e o corpo já havia sido levado para Campina Grande. Os corpos foram encontrados no aeroporto, ou seja, muito distante do sítio Aroeiras, que fica em Quixaba. Eu acho que eles foram levados já mortos para o aeroporto. Mataram eles em outro lugar e jogaram os corpos lá. Digo isso porque no local onde os corpos foram encontrados não havia sangue, nem mato amassado, nem qualquer sinal de violência. Eu não fui lá ver, mas depois eu vi as fotos. Eu só vim ver o corpo dele no dia nove, dia do enterro, que atraiu uma multidão imensa.
PATOSONLINE: Ele foi espancado, torturado, da forma como disseram?
MGR: O rosto dele não tinha sangue, só um pouquinho na boca. A cabeça estava um pouco torta. Eu toquei a cabeça dele porque rasguei aquele plástico do caixão que dá visão à cabeça. Pus minha mão na nuca dele e senti um grande buraco causado por uma pedrada. Era um buraco tão grande que dava para entrar minha mão, e saía um sangue vivo. Ele começou a jorrar sangue pela boca, pelos olhos e pelo nariz. No laudo médico consta que ele morreu de esfacelamento facial e hemorragia interna, causado pelos murros e pedradas que deram nele. Até hoje eu não acredito que um bando de covardes fizeram aquilo com uma pessoa daquela. Agora, essa história que ele foi amarrado com as mãos pra trás e que teve a língua cortada é pura invenção. Isso não aconteceu.
PATOSONLINE: Como foi sua vida no início, sem o marido e com duas filhas?
MGR: No início foi muito difícil. Eu não tinha como me sustentar. Além do coração angustiado ainda tinha que enfrentar grandes problemas financeiros. Nem minha família nem a dele tinham condições de me ajudar. Felizmente apareceu Gilvan Freire que fazia minha feira e me ajudou muito. Dr. Ivânio também me ajudou muito. Eles me davam uma feira grande que dava para passar mais de um mês. Gilvan me dizia: “Não se preocupe com a feira e os problemas financeiros. Enquanto sua pensão não sair, você tem o meu apoio. Você e suas meninas não vão passar necessidades”. No início Gilvan Freire foi mais do que um amigo. Foi um anjo. Devo muitos favores a ele.
PATOSONLINE: Você acompanhou cada passo dado nas investigações?
MGR: Acompanhei tudo. Lembro que Geane Calixto passou dois anos e um mês presa e até hoje eu não entendo porque o julgamento dela foi feito em João Pessoa e não em Patos. Eu sempre deixei claro que não tenho a mínima idéia de quem matou ou mandou matar o Paulinho. Espero a justiça de Deus. Ela foi absorvida por falta de provas. O processo era gigantesco. Gilvan Freire passou dois dias e duas noites lendo ele, só para se ter uma idéia. Nunca recebi nenhuma ameaça. Com nove meses da morte dele sofri um acidente numa barraquinha de comidas típicas que eu coloquei na festa da Padroeira de Patos e houve quem afirmasse que o incêndio foi provocado. Eu sofri queimaduras graves, mas não acredito que aquele incêndio tenha sido provocado.
PATOSONLINE: Que sensação você tem hoje de tudo aquilo que aconteceu?
MGR: Eu sinto uma mágoa muito grande. Só quem sabe é quem vive. É duro você conviver com uma situação há tantos anos e sem saber como foi e quem foi.
PATOSONLINE: E suas meninas, como convivem com isso?
MGR: Thâmara, a mais velha, sempre sentiu o impacto. Tornou-se uma menina muito abalada. Ela era muito apegada ao pai. Para ela não existia mainha, só painho. Ela carrega grandes seqüelas da morte do pai. A mais nova, Thays, terminou o ensino médio, fez vestibular para Direito, mas não foi aprovada. Vai continuar insistindo. A mais velha parou de estudar com 17 anos.
PATOSONLINE: E hoje você ainda tem esperança de que aquele crime seja elucidado?
MGR: Espero pela justiça de Deus.
PATOSONLINE: Você não cobra mais, não exige mais a elucidação do crime?
MGM: Não, não, não. Isso eu não faço. Perdi as esperanças. A justiça dos homens é cega. Eu já entrei em contato com o “Linha Direta” da Rede Globo, mas eles dizem que o conteúdo não é suficiente para uma matéria, pois é baseado em ouvi dizer e esse tipo de reportagem eles não fazem.
PATOSONLINE: Como era o tratamento de Paulo Porto com a família, com os amigos?
MGR: Era um pai maravilhoso. Ele era tudo. Era muito prático nas coisas. Tão prático que eu nem notava que ele era deficiente. Era um homem preparado e eu o vi muitas vezes tirando dúvidas de advogados, embora ele tivesse apenas o 3o ano científico e alguns cursos. Paulinho ficou conhecido por um pergunta inteligente que ele fez ao então governador Burity, e este fez questão de querer conhecê-lo. Tudo começou daí. Paulinho vivia brincando com minhas filhas e até parecia uma criança também. Tinha um gravadorzinho que ele registrava as brincadeiras e as risadas das meninas. Eu gostava muito dele e até hoje me dou muito bem com toda a família dele. Quero aproveitar essa entrevista para agradecer a minha família que me apoiou e a família do Paulinho também. Agradeço ao Gilvan Freire, ao Dr. Ivânio Ramalho, a Dra. Geralda e a todos aqueles me ajudaram nas horas de grande sofrimento. Também quero citar Damião Lucena, que é meu amigão (chora). De todos os jornalistas de Patos, Damião Lucena é o único que nunca esqueceu de Paulinho e de vez em quando escreve sobre o assunto e quando ele estava no rádio sempre lembrou de Paulinho. Eu quero muito bem a Damião e ele sabe disso (chora copiosamente). Gilvan Freire veio na hora certa. Outro dia aconteceu um problema com a minha filha mais velha, eu recorri ao Gilvan e ele não fez cara feia: Me colocou no escritório dele, me ouviu, resolveu tudo e não me cobrou nada, muito pelo contrário, me sustentou em João Pessoa os dias que eu fiquei lá. Ele se prontificou de tudo. Eu tenho muito a agradecer a ele. Gilvan Freire nunca me abandonou.
PATOSONLINE: Dizem que Paulo Porto era muito bruto e...
MGR: Bruto ele era sim. Não levava desaforo pra casa. O cara podia ser do tamanho de um poste, mas ele peitava. Minha filha mais nova, Thays, tem o gênio dele. (Thaís está presente ouvindo a entrevista e começa a chorar. Não quer ser entrevistada porque diz que não consegue falar do pai dela sem chorar. Thâmara, a filha mais velha, se encontrava em João Pessoa)

Depoimentos

Gilvan Freire:
“Paulo foi vítima de traição política”

O que mais me impressionava em Paulo Porto era a sua desenvoltura. Sendo ele um deficiente físico, conseguiu se destacar como profissional num grau que muitos profissionais não conseguiram. O seu recurso vocal, a beleza e a nitidez de sua voz, o tornaram um símbolo do radialismo de Patos. Mais do que o talento dele, mais do que a carreira promissora que ele tinha, mais do que a superação das dificuldades que o transformaram numa referência para as pessoas que precisam superar obstáculos, o que ficou foi a tragédia dele. Apesar de tudo isso, com todas essas qualidades, manso de espírito, generoso, bom amigo e solidário, a sua tragédia é a lembrança mais presente que temos dele. Paulo Porto foi vítima de uma emboscada. Ele foi vítima de uma traição, provavelmente, política; vítima do ciúme injustificável de uma pessoa que passou a nutrir por ele não apenas inveja, mas o desejo também de prejudicá-lo para tirar proveito pessoal. Foi um crime hediondo, um dos que mais abalaram Patos. Eu sempre fui muito inconformado em relação às investigações que foram feitas. Não sei se os seus algozes ainda estão vivos, não sei nominalmente quem seriam essas pessoas, mas há sempre fundadas suspeitas de que, não tendo Paulo Porto inimigos, não tendo quem pudesse tirar a vida dele por qualquer outra razão, certamente o principal motivo foi a política. A política tem dessas coisas traiçoeiras, infames, tem dessas tragédias injustificáveis. As pessoas, às vezes, no curso da atividade política, procedem como monstros, procedem como animais e ele foi vítima dessa fúria animal. Da fúria do ódio motivado pelas paixões políticas. A inveja levou ao ódio e o ódio levou a esse crime brutal.

Damião Lucena:
“O crime mais vergonhoso da história de Patos”

Paulo Porto, a exemplo de alguns radialistas que fizeram época em Patos, era ousado e polêmico, e presume-se que foi morto por conta de seus posicionamentos. Eu acredito que o crime foi conseqüência de alguma atitude tomada pelo próprio Paulo Porto que não agradou a pessoas errôneas que gozavam de privilégios em termos de poder ou de interferência, e o certo é que sua morte acabou ficando na impunidade e é a maior vergonha da Justiça e da Polícia, que nós temos em toda a história de Patos.. Eu acredito que a essa altura do campeonato a tentativa de tentar obscurecer a autoria do crime logrou êxito, até porque faltaram iniciativas compatíveis com essas contradições que aconteceram durante todo aquele processo, e principalmente no pós-crime. A gente sabe que houve uma certa lacuna entre o ocorrido e a apuração propriamente dita e que houve interferência, inclusive em termos de trabalho, pois pessoas que estavam inseridas e que tinham outros objetivos, acabaram conseguindo aquilo que queriam, que era exatamente, atrapalhar as investigações. Daí porque nós tivemos muitas pessoas que acabaram sendo indicadas como possíveis executores ou mandantes, mas que nada tinham a ver com a história e que constituíam, na verdade um ganha- tempo dos verdadeiros algozes que eu acredito que, se vivos estiverem ainda, estão gozando de total liberdade.

Virgílio Trindade:

“Eu acho que Patos perdeu muito e perde muito mais por nunca ter conseguido desvendar esse mistério”

Paulo era uma pessoa muito importante para Patos. Primeiro pelo tipo de programa que ele fazia: um programa com ligação direta com o povo, inclusive com o uso do telefone. Era um homem muito inteligente, muito preparado e pelo fato de ser deficiente, deu um exemplo de que a deficiência não impede a pessoa de ser normal. Ele era normalíssimo. Vivia tal qual às outras pessoas, inclusive não tinha problemas de ressentimentos por conta desse problema e conseguiu ultrapassar todas as dificuldades de forma airosa, tanto que ele conseguiu se firmar como um nome forte no rádio, na imprensa, e conseguiu se eleger vereador, que era uma coisa difícil, como ainda é hoje. Ele conseguiu se eleger vereador sem recursos financeiros, conseguiu com prestígio, conseguiu com o valor pessoal, e é uma pena que não tenha conseguido assumir porque foi exatamente nesse período entre a eleição e a posse que ele foi assassinado. Eu acho que Patos perdeu muito e perde muito mais por nunca ter conseguido desvendar esse mistério da morte dele, que é uma coisa absurda. Perder Paulo foi um prejuízo grande e não saber porque é um prejuízo muito maior.

Entrevista realizada por Wandecy Medeiros