“Mais do que filho, eu era fã’, diz filho do cantor Pinto do Acordeon



Pinto do Acordeon morreu há 20 dias, mas nunca irá embora de vez. Com seis filhos, o músico deixou um legado bonito, de ensinamento, coragem e talento musical. Com uma voz marcante que tem a cara da Paraíba, Pinto do Acordeon se foi. Mô Lima, de 42 anos, músico e filho de Francisco Ferreira Lima, pegou o fole da sanfona pelo caminho para continuar o forró deixado pelo pai. “Mais do que filho, eu era fã”, desabafa.

Escrevo essa reportagem ouvindo a gargalhada de Pinto, sorrindo ao mesmo tempo. Como Mô Lima mesmo lembrou, o pai dele não terminava sequer uma briga sem, antes, deixar uma piada. “Ele não tinha mau tempo”. Mas antes do riso marcante, da brincadeira de sempre, a saudade maior é de ouvi-lo cantar e tocar.

Mô Lima conta tudo com saudade, mas também faz recordações aos risos. Não tem como ouvir as histórias de Pinto do Acordeon e não sorrir. Mas o início do que quero contar, tem mais a ver com a relação entre pai e filho, do que com o músico, eterno.

A relação entre Moisés Lima e Francisco Ferreira Lima começou por meio da música. Explico melhor. É que, embora Mô seja filho de sangue de Pinto do Acordeon, ele não foi criado nem pelo pai nem pela mãe até os treze anos. Com a difícil situação financeira na época, e como o pai viajava bastante, a mãe não tinha condições de cuidar de dois filhos. Mô, então, foi morar com a avó, uma tia e um tio. Primeiro em Garanhuns, depois em Patos e, por último, em São Paulo, onde ficou até os treze anos.

Mas não por isso deixou de se relacionar com o pai. Recebia discos de músicos de forró e também do próprio pai. Apesar disso, não nutria nenhuma vontade de se envolver no mesmo meio musical. Mas era o elo que tinha com o pai. “O terapeuta diz que eu aprendi a tocar sanfona para eu me entrosar com meu pai e hoje eu vejo que foi isso”, confessa Mô.

Aos treze anos, então, veio morar em João Pessoa. A casa já tinha o kit completo: mãe, pai e os outros cinco irmãos. Apesar de hoje pelo menos três filhos terem seguido carreira musical, naquela época, só quem podia pegar na sanfona e fazer o fole roncar era Pinto do Acordeon. “Ele dizia que a gente tinha que estudar. Mas ele falou estudo e eu, teimoso, entendi estúdio”, fala, aos risos.

Dominguinhos, Sivuca, Pinto do Acordeon e Mô Lima — Foto: Mô Lima/Arquivo Pessoal

Dominguinhos, Sivuca, Pinto do Acordeon e Mô Lima — Foto: Mô Lima/Arquivo Pessoal

‘Eu quero sossego’

Com seis meses já morando em João Pessoa, Mô já começou a pegar na sanfona, mas escondido. Não tinha como ser diferente. Você já imaginou receber visitas de Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Trio Nordestino, Alcymar Monteiro, e não querer, ao menos, ouvir forró? O que Mô queria era tocar. “Eu fui absorvendo aquilo tudo e fui pegando mais na sanfona”, conta.

Entre os anos de 1992 e 1997, Pinto do Acordeon foi vereador de João Pessoa. Certo dia, quando chegou da Câmara Municipal, viu que Mô, na época ainda Moisés, estava tocando na sanfona que Luiz Gonzaga havia dado a Pinto. O pai mandou ele guardar a sanfona, disse que tinha ciúmes e que ele precisava estudar. “Mas eu aprendi a tocar nela”, revela Mô.

Depois disso, foram três meses de tristeza, sem sequer tocar na sanfona. “Mas o sangue fervia quando eu via a sanfona dentro da caixa”, conta. Até que um dia ele resolveu pedir a chave para a avó e ela entregou. Mô, então, começou a treinar. Ia para os fundos da casa, pegava uma vitrola, colocava os disco e, ouvindo, ia “tirando” as músicas na sanfona.

O relógio marcava 11h. Naquele dia Pinto do Acordeon havia chegado mais cedo do que o previsto da Câmara Municipal e flagrou o filho tocando novamente a sanfona. “Quem está tocando essa sanfona?”, Pinto perguntou. A mãe dele pediu que não brigasse com o neto, porque ele já estava bem avançado em puxar o fole.

Então ele foi até o quarto:

  • Pinto: Mas rapaz, tu é teimoso, foi tocar na minha sanfona…
  • Mô: Painho, depois das tarefas da escola, dá vontade de tocar…
  • Pinto: Mas rapaz… Tu já tá tocando essas músicas difíceis?

E, na verdade, não era apenas uma música difícil. Era uma que Pinto já tentava tocar há algum tempo, mas ainda não havia conseguido com a perfeição que desejava. E Moisés conseguiu. Ele tinha entre 14 e 15 anos e já dedilhava na sanfona a música “Eu quero sossego”, um chorinho de K Ximbinho.

Foi quando tudo andou mais rápido. Em um ano, já estava tocando muitas músicas e, entre os 16 e 17 anos, já se apresentava na noite em João Pessoa. E, agora, com o apoio do pai. Mas mesmo assim, Pinto do Acordeon não deixava de repetir: tem que estudar. E Mô aceitava a proposta, como conta, sempre sorrindo, em um diálogo com o pai:

  • Mô: É, painho, o caminho é cheio de pedras…
  • Pinto: Não são só as pedras, não, são os carrapichos que ficam agarrados nas pernas.
Mô Lima e o pai, Pinto do Acordeon, ainda quando estava internado — Foto: Mô Lima/Arquivo Pessoal

Mô Lima e o pai, Pinto do Acordeon, ainda quando estava internado — Foto: Mô Lima/Arquivo Pessoal

‘Esse nome Mô é estranho’

Moisés concluiu o ensino médio, como o pai sempre quis. E deve concluir em breve a graduação em música pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). “E continuar o forró, não pode parar. Eu vou assumir o forró de vez”, declarou.

Por muito tempo, Mô só acompanhava algumas bandas, tocando teclado e sanfona. Até de banda de axé já fez parte. Fez gravações com vários artistas, acompanhou Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e até acordeonista francês. De três anos para cá, decidiu ser Mô Lima. Saiu da banda do pai, porque ele mesmo já havia reduzido a quantidade de shows. Assumiu o nome artístico de Mô Lima, produziu o último disco e DVD do pai e algumas vezes ainda fazia shows ao lado dele. Mas não foi fácil fazer com que Pinto aceitasse esse tal de nome artístico.

  • Mô: Meu nome artístico vai ser Mô Lima.
  • Pinto: Mô? Mas esse nome Mô é muito de mimimi.
  • Mô: É, painho, mas todo mundo me conhece por Mô.
  • Pinto: Mas esse nome Mô é estranho, Moisés.
  • Mô: E o senhor que é Pinto e todo mundo chama de Pinto?
  • Pinto: É, mas isso aí foi o nome que colocaram.
  • Mô: É, mas o meu colocaram também.
  • Madalena (mãe): Ele já colocou na internet “molima_oficial”.
  • Pinto: Esse nome Mô Lima ainda vai, mas esse underline não tem nada a ver com você.
  • É perceptível que a memória de Pinto de Acordeon não ficou apenas na música, mas também no humor. Em poucos minutos de conversa com Mô, eu gargalhei várias vezes, eu quis chorar outras vezes, mas, principalmente, eu quis agradecer. Que legado gigantesco e honrado deixou esse homem.

    “No palco, era como se eu tivesse em um altar. É Deus no céu e meu pai na terra. Eu sabia o que ele estava pensando no palco. Ele olhava para mim e eu já sabia o que ele queria cantar”.

    Deixou para Mô Lima e os outros filhos o respeito a quem vai ouvir a música. Qualquer música e letra que ele fosse cantar, pensava: será que o povo vai aceitar isso que eu estou falando? “Ele tinha um respeito à música nordestina, de falar o que era nosso mesmo. Do jeito que falamos. Ele me deixou o respeito com o público”, agradece Mô.

    Mô Lima com o pai Pinto do Acordeon no palco, tocando e cantando juntos — Foto: Mô Lima/Arquivo Pessoal

    Mô Lima com o pai Pinto do Acordeon no palco, tocando e cantando juntos — Foto: Mô Lima/Arquivo Pessoal

    ‘Se todos fossem iguais a você’

    Para quem lê, imagina que a música que faz Mô mais lembrar do pai é algum forró. Nada disso. Sempre que Pinto do Acordeon bebia um pouco além da conta, cantava a música “Se todos fossem iguais a você”, de Tom Jobim e Vinícius de Morais. Não é o forró que principalmente lembra o pai. É a vivacidade. É a alegria. A energia que contagiava.

    Outra música que também faz ele lembrar do pai pertence a outro poeta. “Súplica cearense”. “Ele dizia que queria ter escrito ela, que a letra era perfeita”, revela Mô.

    Neste domingo (9), o dia dos pais vai ser diferente. Os filhos não vão mais se reunir com o pai em algum restaurante da cidade para conversar e comer a comida sertaneja que Pinto do Acordeon tanto gostava.

    Mas fica a lembrança. Uma noite, quando Moisés tinha entre seis e sete anos, Pinto do Acordeon foi até a casa onde o filho morava, depois de uma gravação, já de madrugada. Ele dormia. Quando o pai entrou no quarto, abriu os olhos rapidamente e voltou a dormir. Hoje, 9 de agosto, dia dos pais. Talvez tudo que o filho queria era essa visita novamente. Abrir o olho rapidamente, fechar e voltar a dormir, sabendo que Pinto do Acordeon estaria lá na sala, fazendo sua voz marcante ser ouvida, mesmo com o sono pelejando.

    G1/PB




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