Lembranças de Padre Assis, por Luíz Gonzaga Lima de Morais



Há algum tempo atrás, a professora Adalmira Marques Cajuaz, proferiu no Instituto Histórico patoense uma palestra falando sobre a grande figura humana que foi o Padre Joaquim de Assis Ferreira. Ao longo do tempo, muito se tem escrito sobre o Padre Assis. Como sacerdote, como orador sacro, como educador, como diretor da Rádio Espinharas, como grande cronista do quotidiano com crônicas que fizeram história pelos microfones da rádio Espinharas.

Aqui vou relembrar alguns fatos da sua vida que poucos conhecem.

Padre Assis quando veio para Patos em 1945, passou a morar no Ginásio Diocesano, ali na Praça João Pessoa. Era inspetor federal de ensino e professor do Diocesano e por isso ali residia. Na época em que o conheci mais de perto, ele morava em um quarto cuja janela dava para o nascente, próximo ao portão do campo de futebol, com visão privilegiada do Campo do Ginásio, onde começou o nosso futebol profissional. Era início da década de sessenta e eu trabalhava no Armazém do Leão, era uma espécie de office boy, juntamente com outros dois adolescentes irmãos, Diraldo e Everaldo.

Padre Assis

Uma das nossas funções era fazer pequenas entregas. E uma destas entregas era disputada por nós: entregar os charutos de Padre Assis. Ele fumava os famosos charutos da Suerdick: Holandezes e Florinhas. E nos interessavam as entregas por uma razão prosaica. Quem fosse levá-las ganhava o troco. Naquela época, uma caixa de charutos custava quarenta e cinco cruzeiros. Padre Assis pagava com uma nota de cinquenta cruzeiros e dizia que o troco era da gente. O troco dava para uma semana de cinema ou mais.

Nessas idas ao quarto de Padre Assis descobrir outra mania dele. Criar gatos. Uma parte da sua marmita era destinada aos gatos e havia dezenas deles rondando o seu quarto.

No tempo em que ele foi diretor da Rádio Espinharas descobrimos outra mania dele. Perguntar que idade tinha cada pessoa de cuja morte lhe dávamos notícias. Sua preocupação era maior quando o defunto era mais novo do que ele.

No tempo da Rádio Espinharas conhecemos também outra marca pessoal dele: a prodigalidade. Solteiro, sem filhos, de família de boas condições financeiras, não se preocupava em deixar herança. Gostava de ajudar as pessoas. Sem alardes. E ninguém é capaz de avaliar quanto dinheiro ele “enterrou” na Rádio Espinharas. Por ruim que estivesse o faturamento nunca faltou o “vale” de fim de semana. Se a Rádio não tivesse caixa ele inteirava do dele. Na reforma do prédio nunca faltou dinheiro para o material.

Outra mania, nos contatos com as pessoas que gozavam de sua intimidade, eram as expressões de duplo sentido. Com um reflexo impressionante, ele respondia na hora.

Padre Assis sempre gostou de um jogo de buraco, jogo de cartas muito comum. Nos finais de semana, sempre se reunia com amigos para umas partidas de buraco. Nos últimos anos de vida, já morando no Cristo Rei, de vez em quando convidava Padre Valdomiro para uma partidinha. E muitas vezes acompanhei Padre Valdomiro para uma mesa a três. As partidas às vezes iam até às cinco horas da manhã, pois os dois tinham que celebrar a missa das cinco.

Da sua condição de grande orador sacro, fui testemunha uma vez de como preparava os seus famosos sermões. Convidado para fazer o sermão da Festa de Santana, padroeira de Santana de Garrotes, saímos cedinho para aquela cidade. Na frente, iam ele e o motorista (Nilson ou Zé Pedra), não me lembro bem. No banco de trás, eu, Chico Phiapp e seu ajudante, o cabo Jabiraca. Batíamos papo ao longo da maior parte da viagem. Lá pelas tantas, ele disse. Agora vocês vão me dar licença. Vou “amarrar” as ideias. E só o víamos resmungar, preparando o sermão que faria dali a pouco.

Era na verdade um grande homem, em todos os sentidos. Mas era de uma simplicidade que cativava.

Luíz Gonzaga Lima de Morais