Homenagem a uma velha guerreira!



(Luiz Gonzaga Lima de Morais)

Faleceu, na tarde desta terça-feira, 06/01/2021, de causas naturais, em João Pessoa, onde residia nos últimos quinze anos, a senhora Maria Bastos da Nóbrega Filha, de 93 anos de idade. Dona Maria Nóbrega era mãe de Arlene, minha esposa, mas apesar de sogra era uma mãe para mim.

Como o mais velho dos “filhos”, tínhamos uma proximidade muito grande, pois conheci o universo em que ela se criou e viveu. E ao longos dos últimos 37 anos fui conhecendo os detalhes de sua vida, de sua família, da família do seu falecido marido, motivo pelo qual não faltava assunto sempre que nos encontrávamos. E nestes últimos quinze anos, nos víamos pelo menos uma vez por semana.

Dona Maria casou na altura dos vinte e cinco anos, com Ataíde Bento de Lucena, da tradicional família Bilu, conhecida por não ter “papas na língua”. E dona Maria conseguiu dominar o espírito rebelde de Ataíde e conviver com ele até a morte acidental, montado numa lambreta e atropelado por um caminhão, fato acontecido há quarenta e dois anos atrás.
Viúva aos cinquenta anos, passou a se dedicar exclusivamente ao que fora, até então, o sonho de sua vida, educar todos os filhos.

Enquanto Ataíde provia, como marchante no Mercado Público, o sustento do casal e dos nove filhos, Dona Maria cuidava da casa e nas horas vagas exercia os mais diversos ofícios para garantir o vestir e principalmente a educação dos filhos. Em casa mesmo, foi manicure, maquiadora, costureira, bordadeira e até cabeleireira, atividades que aprendera enquanto solteira.

Isto tudo ela me contou. Do aprendizado, com o apoio das tias, até o exercícios das atividades que só deixou depois que os filhos, encaminhados nos estudos, passaram a trabalhar e ajudar nas despesas de casa. Assim ela criou e educou os nove filhos, quase todos formados, com exceção de dois que não quiseram prosseguir nos estudos. Ataimar, engenheiro agrônomo, é funcionário aposentado do Banco do Brasil. Ademir, também agrônomo, é funcionário do Banco do Nordeste.

Ademar é engenheiro e exerce a profissão como profissional liberal. Arlene, formada em direito e geografia, foi radialista, exerceu por algum tempo assessorias de imprensa na Assembleia Legislativa, é cantora amadora, e divide comigo a direção da família, nas minhas constantes viagens pelo interior. Auzenir é pedagoga, evangelizadora com profundo conhecimento da Bíblia e preleções eloquentes, além de se dedicar aos filhos e netos. Aldo deixou os estudos depois de aprovado em concurso no Banco do Brasil, onde fez brilhante carreira, até se aposentar o ano passado.

Ângela é formada em economia e trabalha atualmente no SESC, onde exerce funções burocráticas na área de secretária e trabalhista. Aécio também não quis prosseguir nos estudos, virou artista da música, tendo sido vocalista dos Três do Nordeste e continua fazer carreira solo até hoje, enquanto produz e apresenta programas de músicas sertanejas há mais de vinte anos, tendo passado por quase todas as emissoras locais, estando há quatro anos na Rádio Espinharas.

Alberto, o caçula, é formado em economia, foi estagiário e contratado no Banco do Brasil, no SEBRAE, no Sistemas Penitenciário do Estado e em outras atividades. Atualmente, solteiro, se dedicava a cuidar de dona Maria, com a maior dedicação.

Todo dia dona Maria assistia ao programa Acorda Sertão de Aécio. Se acordasse cedo acompanhava pelo Facebook, se acordasse mais tarde assistia a repetição do programa no Face. Mantinha-se antenada, perguntando pelos filhos e netos.

Dona Maria só tinha que se orgulhar dos filhos, quase todos formados e casados. E que têm sido o coroamento do seu sonho de mãe. E esses filhos lhe deram quinze netos e quinze bisnetos. Dentre os netos, médicos, advogados, médicos veterinários, matemáticos, empresários e de outras atividades, reproduzindo o esforço investido nos respectivos pais.
Aos 93 anos, feitos em agosto do ano passado, já vínhamos todos sentindo que a idade começava a pesar nela.

A memória, por vezes, falhava, reagia em seguir tratamentos, alimentação era restrita. Mas continuava ativa e conversando. Comemoramos juntos Natal, Ano Novo e, na segunda, o aniversário de Arlene, rodeada dos filhos e participando das conversas.

Mas, o cardiologista já prevenira. O coração está cansando, batendo mais lento e qualquer dia ela, simplesmente, “se apaga”. Foi o que aconteceu, nesta quarta-feira. Auzenir deu banho nela, Arlene a vestiu e as duas a sentaram na sua cadeira de balanço. Daí a pouco ela pendeu a cabeça e entregou seu espirito a Deus.

Pela proximidade maior, principalmente nos últimos anos, dizia que eu era mais um filho, e eu a sentia quase como uma mãe. Por isso esta homenagem. Apesar da lenda, há sogras boníssimas. Dona Maria era uma delas.