Entenda como a China pode construir um hospital em 10 dias

Dia e noite, trabalhadores atuam em obra de novo hospital Huoshenshan, em Wuhan (China). Construção feita com módulos pré-fabricados agiliza o início do funcionamento da nova unidade — Foto: Arek Rataj/AP Photo



Duas unidades montadas a partir de pré-fabricados no epicentro do coronavírus, a cidade de Wuhan, deverão receber, juntas, mais de 2 mil pessoas.

Wuhan, cidade na China epicentro do surto do novo coronavírus, chamou atenção do mundo ao anunciar na semana passada a construção de dois novos hospitais para dar conta da crise de saúde. A expectativa é que o primeiro deles comece a funcionar nesta segunda-feira (3) — apenas dez dias depois do início das obras.

E como isso seria possível?

Segundo o governo chinês, a resposta está no uso de construções pré-fabricadas para abrigar as centenas de leitos. Módulo a módulo, os hospitais vão sendo montados a partir das peças que chegam das fábricas ou depósitos.

Operários instalam peças pré-fabricadas para montar os módulos do hospital Huoshenshan. Unidade em Wuhan, na China, atenderá pacientes com o novo coronavírus — Foto: Chinatopix via AP

Imagens da emissora estatal chinesa CGTN mostraram dezenas de tratores nivelando o solo para receber os blocos pré-fabricados. Enquanto os primeiros módulos eram montados, operários preparavam a rede elétrica do novo local.

Além disso, as autoridades de Wuhan mantiveram o ritmo de construção dia e noite. Mais de mil pessoas trabalham nas duas obras, segundo a imprensa estatal.

Uma transmissão ao vivo da construção está disponibilizada pela TV oficial do regime chinês. Segundo a CGTN, mais de 27 mil pessoas assistiram ao vídeo em 29 de janeiro.

Foto aérea mostra escavadeiras no canteiro de obras do novo hospital dedicado a pacientes do novo coronavírus em Wuhan. — Foto: STR/AFP

O uso dos pré-fabricados repete um método que a China usou para conter outro surto, muito semelhante ao do novo coronavírus: em 2003, em meio à crise do vírus da Sars, Pequim correu para construir um hospital temporário, também feito com peças pré-fabricadas (leia mais no fim da reportagem).

Desde o fim de dezembro, centenas de pessoas morreram por causa do novo coronavírus, que infectou milhares de pacientes em diferentes partes do mundo. Em meio à crise, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou na quinta-feira (30) emergência internacional.

Coronavírus foi detectado em Wuhan pela primeira vez em dezembro; a cerca de 1,2 mil km de Pequim, a cidade é a capital da província de Hubei — Foto: G1

Raio-x dos hospitais

Veja abaixo mais detalhes sobre os dois novos hospitais em construção em Wuhan, segundo dados da TV estatal CGTN.

Foto desta quinta-feira (30) mostra avanço das obras do hospital Huoshenshan, em Wuhan, na China. Unidade terá 1 mil leitos para pacientes com o novo coronavírus — Foto: Cai Yang/Xinhua via AP

Hospital Huoshenshen

  • Área: 25 mil metros quadrados
  • Capacidade: 1 mil leitos
  • Início da construção: 25 de janeiro
  • Início do funcionamento: 3 de fevereiro
  • Significado do nome: Monte do Deus Fogo

Hospital Leishenshan

  • Área: 30 mil metros quadrados
  • Capacidade: 1,3 mil leitos
  • Início da construção: 25 de janeiro
  • Início do funcionamento: 5 de fevereiro
  • Significado do nome: Monte do Deus Trovão

Hospitais de campanha

Tendas de hospital de campanha montadas em 2019 no DF para atender pacientes com suspeita de dengue — Foto: Breno Esaki/Saúde-DF

O professor Gerson Salvador, infectologista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), explica que o modelo dos novos hospitais de Wuhan se aproxima dos hospitais de campanha. E o que é isso?

“Esses hospitais de campanha são estruturas provisórias para atender as pessoas quando há guerras e grandes epidemias”, explica.

Grupo trabalha na terça-feira (28) em local onde será montado hospital Huoshenshan, em Wuhan, na China, para receber pacientes com o novo coronavírus  — Foto: Chinatopix via AP

A diferença, explica o especialista, é que geralmente hospitais de campanha atendem menos gente e são feitos em toldos ou construções mais precárias. Em um surto em uma cidade de 11 milhões de habitantes como Wuhan, é preciso usar uma estrutura mais robusta — algo que os pré-moldados conseguem atender.

“Fora da China, não existe nada igual ao modelo que eles estão usando”, afirma Salvador.

Segundo o professor, a tendência é que, com o tempo e os devidos cuidados, o número de atendimentos para os casos do novo coronavírus deverá diminuir. Por isso, esses hospitais emergenciais servem para resolver o problema enquanto durar a crise.

Experiência chinesa

Homem participa de reforma do hospital Xiaotangshan, em Pequim (China). Unidade recebeu pessoas com Sars em 2003 e agora se prepara para atender pacientes com o novo coronavírus — Foto: Peng Ziyang/Xinhua via AP

O modelo da construção dos novos hospitais em Wuhan segue a corrida para concluir o hospital Xiaotangshan em Pequim, em 2003. Em meio ao surto de Sars — outro tipo de coronavírus —, a capital chinesa instalou às pressas uma unidade de saúde que, segundo autoridades locais, ficou pronta em ainda menos tempo: sete dias.

De acordo com o governo chinês, o hospital Xiaotangshan atendeu um sétimo dos pacientes com Sars de todo o país em um espaço de dois meses.

“A China copiou de si mesma a experiência de construir um hospital para mil leitos”, comenta o professor e infectologista Gerson Salvador, da USP.

Começou nesta quinta-feira (30) reforma de antigo hospital em Pequim, na China, usado para atender pacientes com a Sars — Foto: Peng Ziyang/Xinhua via AP

Segundo reportagem da BBC, o local contava com um espaço para raio-x, uma unidade de terapia intensiva e laboratório. O Xiaotangshan acabou abandonado, aos poucos, de acordo com a emissora britânica.

Porém, a agência estatal chinesa Xinhua informou na quinta-feira que o hospital construído às pressas em Pequim para dar conta do surto de Sars deve ser reativado. As reformas do Xiaotangshan começaram e devem ficar prontas nos próximos dias também para dar conta dos pacientes infectados com o novo coronavírus.

G1




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