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15 de dezembro de 2017, 17:03

O NATAL NOSSO DE CADA ANO NOVO


Mais uma vez chega o tempo do Natal e Ano Novo. A vida evoca a compreensão dos mistérios da origem de tudo. O Natal inspira recomeço porque é a festa das crianças. A criança quebra os paradigmas de artificialidades que o mundo adulto construiu. Diz o que pensa sem pensar o que diz porque criança não sente necessidade de ensaiar seu universo. O Natal é também a festa da magia. Claro que não disse tudo sobre o Natal. Basta Imaginarmos que tantas vezes o menino Jesus, ao brincar, transformou sabugos de milho em cavalos e bois. Os adultos não entendem estes conceitos cujo objetivo é viver o impossível como certo. Acho que todo mundo deveria voltar a ser criança ao menos uma vez na vida. Esse dia deveria ser no tempo do Natal. Talvez repensássemos nossos propósitos em tratarmos as doenças de adultos: as manias de grandeza, as máscaras de uma festa que não existe, as ponderações e conjecturas para dizer uma palavra que não sai do coração, sofrer e morrer por aquilo que não vale a pena. O chora da Criança de Belém rasgando o silêncio daquela noite fria da história humana vai dizer que vivemos em um mundo enlouquecido e desconexo.   Confesso que a cada ano reafirmo minha decisão de repensar meus conceitos de Natal e Ano Novo recebidos de minha civilização. Ao longo dos tempos me disseram que devemos comemorar a vida que passa num evento chamado aniversário. O sujeito “paga um mico”, põe-se à mesa onde há um bolo e canta-se sempre a mesma música. No Natal, o sujeito aniversariante não vem, não se sabe bem ao certo quem ele é. Nesta noite poucos comem e bebem muito no lugar de muitos que não bebem nem comem porque não podem. Estes não existem para o sistema pagão que criou o Natal sem Jesus. Já o Ano Novo dizem que é novo. Muitas vezes não é tão novo. Os móveis da casa continuam lá com a mesma poeira de antes, os papéis de contas e rascunhos de uma vida atribulada do ano passado continuam na gaveta do birô. Não somos capazes nem de mudar o caminho para ir ao trabalho ou à padaria mais próxima. Os sonhos vão-se envelhecendo e os sonhadores também. Já não sabemos mais o que pedir ao tempo, este inseparável amigo da vida. Até pedimos e conseguimos. Depois descobrimos que não era bem aquilo que queríamos. Como entender o universo dos adultos? Construímos um Brasil onde morrem mais pessoas que na Síria, país onde se vive uma guerra sangrenta e desumana; uma reforma da Previdência arquitetada e votada por políticos, muitos deles aposentados, os quais ganham altos salários em relação ao homem médio brasileiro; projetos e planos de governo para serem apresentados nas próximas eleições à base do ridículo; o povo é um detalhe; os jovens não têm trabalho nem futuro; o sertão à mercê de sua própria sorte sem água, comida, segurança e dignidade. Nossos açudes derramam as últimas lágrimas de seus leitos. Nas últimas décadas a humanidade sonhou e pediu uma civilização sem guerras, marcada pelo progresso, tecnologia e avanços científicos. Os avanços científicos e tecnológicos vieram. Fazem-nos muito bem. Porém, veio também a destruição da pessoa humana e da natureza. Parece que a vida na terra tem prazo. Será que pedimos errado?   

A mitologia da Roma Antiga conta que certa vez o deus Baco- o famoso deus do vinho- sentiu falta de seu mestre e pai mortal, Sileno. Com idade avançada e bebendo sem medida, após ficar embriagado, perdeu-se na volta para casa e foi levado por agricultores até à presença do Rei Midas. Reconhecendo o velho Sileno, o Rei Midas o recebeu em sua casa a quem deu cuidados especiais e atenção. Em seguida levou-o ao deus Baco o qual ficou feliz e grato pois já o tinha como morto. Em recompensa, ofereceu ao Rei Midas a oportunidade de pedir o que quisesse. Midas pediu para ser o homem mais rico do mundo e tudo que tocasse seria imediatamente transformado em ouro. Baco ficou triste com o pedido pois se tratava de uma péssima decisão. Midas saiu pelos campos e vales tocando em árvores, pedras, frutos. Tudo se transformava em ouro ao simples toque de suas mãos e ele se sentiu o homem mais feliz da terra por possuir tanta riqueza e poder. Ao chegar em casa ordenou aos criados que preparassem um grande banquete em sua homenagem por tão grande vitória. Quando pôs-se à mesa começou a tocar nos alimentos e tudo se transformou em ouro. Assim aconteceu com o pão, com os cereais, com as frutas, com as massas... O Rei Midas não conseguiu comer pois seus dentes não mastigaram os alimentos transformados em ouro. Até o vinho desceu-lhe pela garganta rasgando tudo por dentro. Estava condenado a morrer de fome e sede embora fosse o homem mais rico da terra. Midas foi até Baco para pedir que revogasse sua decisão. Às margens do Rio Pactolo o Rei Midas foi remido de sua culpa, vivia como peregrino e despojado depois de tamanho susto. Passou a ter cuidado com o que pedia.

Que vamos fazer com o conceito de mundo que criamos? Como viver mais um Natal e Ano Novo usando as mesmas toalhas com cheiro de mofo do Natal passado? Que vamos pedir a nós mesmos para o futuro que tão breve se vai? O sorriso da Criança de Belém não é sinal de ingenuidade ou uma simples doce bondade. É um desafio e um questionamento para nós, adultos: “O mundo que vocês pediram e construíram não pode ser vivido por vocês mesmos”.  O Poeta português Alberto Caeiro descreveu com clareza a nossa condição humana atual que precisa ser repensada: “...Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa. Despe o meu ser cansado e humano e deita-me na tua cama. E conta-me, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é”.

Pensemos, neste Natal, sobre nossos propósitos sem esquecermos que somos construtores de um mundo novo cuja inspiração seja a de um Deus-criança, sem medo de sonhar.

Albertino de Sousa Barreiros- Advogado e Padre Anglicano.

 


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