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21 de novembro de 2017, 14:00

Resignação sem fatalismo


            08h45 de um dia comum. Lá fora o sol duelava para furar as nuvens densas e uma chuvinha extemporânea lavava a manhã. O coletivo seguia pela rodovia em obras. Como acontece em todas as segundas, a população do veiculo era composta notadamente de operários e operadores dos comércios instalados às margens da estrada. A cada parada essa população sofria acréscimos e perdas. Dificilmente alguém faz uma viagem inteira, do ponto inicial ao final; a rotatividade de indivíduos é constante.

            A certa altura da viagem, ao fim do perímetro industrial e comercial, a média de idade população do coletivo aumentava. É que os grisalhos embarcavam rumo ao centro da cidade. Certamente se dirigem a algum serviço médico, instituto de previdência ou tão somente vão encontrar os parceiros numa das praças centrais para por o papo em dia ou disputar umas semi- amistosas partidas de dominó. Essas cenas fazem parte do cotidiano das cidades pequenas.

            A senhorinha adentrou sorridente e disparou um contagiante “bom dia para todos”. Poucos responderam. Há muita gente soturna e de poucas palavras numa manhã de segunda. Ela não se importou, seguiu com sua alegria, pediu “licença, abençoado” e sentou-se ao meu lado. Falou-me da missão naquela manhã. Iria à casa de uma neta resgatar uma sombrinha que, de passagem, havia deixado por lá. Acho que a pancada de chuva matinal a animava a realizar aquela missão.

            “Minha filha disse: ‘Mãe, já que você vai para o centro da cidade, aproveite e compre uma sombrinha nova”, ela me disse, enquanto explicava o percurso que teria que fazer. “Salto ali, no aceiro da mata, sigo principal de Manguinhos, quando chegar nos trilhos do trem vou beirando a linha...” de repente mudou de assunto e falou da beleza que ficaria a rodovia depois da triplicação. “Vai ficar muito bonito. As coisas vão melhorar. Vai ser bom pra todo mundo, pra cidade. Muitas oportunidades, não é mesmo?”

            “Isso é obra para 2020, 2022, né?”. Asseverei que sim, provavelmente, caso não haja acidente de percurso, falta de verba, essas coisas. Entre risos, ela disse: “Acho que não estarei mais aqui para ver!”. Contrapus. “Que é isso, vai estar sim!”. Não, ela retrucou, sabe que idade tenho? Sempre fui ruim de “adivinhar” idades, mas, analisando a plástica da senhorinha, larguei um 72. Ela arregalou os olhos, iluminou o rosto e revelou: “Vou fazer 73, estou velha para esperar qualquer coisa a mais da vida”.

            Ia contrapor algumas coisas sobre a longevidade, as possibilidades de vida que hoje se mostram para nós viventes, mas ela já se levantava. Havia chegado ao aceiro da mata, seu ponto de parada. Aproximou-se lépida da porta, deu um “obrigado, condutor” em alto e bom som e desceu. Sem expectativas, mas sem dor. Parecendo conter em si todas as sabedorias da existência e dominar todos os códigos secretos da jornada insólita e previsível do ser humano. O ônibus deu partida e instantaneamente a perdi de vista.

por Edson de França 

 


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