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07 de fevereiro de 2011, 20:53

“Doutor, tenho o coração crescido”


Muitas vezes, nós, profissionais da saúde, nos deparamos com essa afirmação. Dentro desse contexto, será abordada a Doença de Chagas, a qual comemora, em 2009, seu centenário. A patologia a ser descrita foi descoberta em abril de 1909, por Carlos Chagas, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, representando um marco na história da medicina.

          No tocante à epidemiologia, atualmente, há cerca de 12 milhões de portadores da doença na América Latina e aproximadamente 2,5 milhões de pessoas infectadas no Brasil, existindo áreas endêmicas em quase todo o país. Além disso, em 1990, a mortalidade pela doença de Chagas foi estimada em 3,9/100.000 habitantes no Brasil.

         A doença de Chagas ou Tripanossomíase Americana é uma patologia infecciosa, de curso crônico, e que tem como agente etiológico um protozoário parasita, chamado Trypanosoma cruzi. A transmissão pode ser: vetorial, transfusional, vertical (durante a gravidez) ou por via oral (caso de contaminação por ingestão de caldo-de-cana contaminado com fezes do “barbeiro”, em Santa Catarina), sendo mais comum a primeira forma.

          O vetor (agente que transmite a doença) é um inseto, o triatomíneo, conhecido popularmente como “barbeiro” ou “chupão”, o qual possui hábitos noturnos, vive em frestas de casas de pau-a-pique, tocas de animais, casca de troncos de árvores, dentre outros.

           Tal inseto, ao se alimentar do sangue de animais (cão, tatu, gambá, rato, entre outros) e/ou outros humanos contaminados, se infecta e, ao picar um indivíduo saudável, deposita suas fezes (contaminadas com o parasita). O indivíduo coça o local da picada, espalhando as fezes do inseto, que entram em contato com solução de continuidade da pele/mucosas e, dessa forma, há contaminação com o T. cruzi.

              As manifestações clínicas da doença são várias, apresentando alterações peculiares nas respectivas fases: aguda, indeterminada e crônica.

              A fase aguda dura cerca de dois a quatro meses e é caracterizada por parasitemia alta (grande quantidade de parasitas na circulação sanguínea). Algumas vezes, pode ser sintomática ou oligossintomática.

              No local da picada pelo vetor, observa-se o chamado chagoma de inoculação (área vermelha e endurecida); quando essa lesão é próxima aos olhos, é conhecida como sinal de Romaña. Além disso, o paciente apresenta adenomegalia em linfonodos próximos à lesão.

             Após um período de incubação (5-14 dias), o paciente apresenta febre (prolongada e recorrente), linfoadenomegalia generalizada, rash cutâneo (vermelhão generalizado). Pode haver alterações cardíacas, hepatomegalia, esplenomegalia. Em casos graves, o indivíduo pode apresentar quadro de meningite ou encefalite.

           Com o término da fase aguda (aparente ou inaparente), caso não seja feito tratamento específico, o paciente evolui para a fase crônica.

           A fase indeterminada é uma forma crônica, na qual o paciente apresenta exame sorológico positivo para a doença, no entanto não tem alterações identificáveis por exames específicos. Esta fase pode durar toda a vida ou, após cerca de 10 anos, pode evoluir para outras formas.

           Na fase crônica, o indivíduo pode apresentar alterações cardíacas e/ou digestivas ou ainda em outros órgãos, sendo estas menos comuns.

           Acerca das alterações cardíacas, constata-se que entre os indivíduos infectados, aproximadamente 25-35% apresentam comprometimento cardíaco. Outro dado pertinente: dos casos que evoluem mal, 91% apresentam insuficiência cardíaca. Causam importante limitação no chagásico crônico e provocam alto percentual de mortes.

            O paciente pode ser assintomático (com alterações no eletrocardiograma) ou apresentar desde arritmias, acidentes tromboembólicos, insuficiência cardíaca até morte súbita. Vale ressaltar ainda que, uma das principais características do paciente chagásico de longa data é a presença de cardiomegalia (observada na radiografia de tórax), o famoso “coração crescido”, referido no título do artigo.

             Sobre os danos ao trato digestivo, há principalmente complicações relacionadas aos plexos nervosos, envolvendo alterações na motilidade e morfologia, resultando em megaesôfago ou megacólon, esôfago e intestino grosso dilatados, respectivamente. Tais alterações podem ser observadas através de exames radiológicos contrastados.

             Para se fazer o diagnóstico, deve-se suspeitar da patologia (paciente oriundo de áreas endêmicas, contato prévio com “barbeiro”), avaliar sintomatologia do indivíduo e recorrer a exames laboratoriais, os quais compreendem: métodos parasitológicos, para identificação do parasita e/ou métodos sorológicos, para detecção da resposta imunológica do hospedeiro.

            O tratamento vai depender da fase da doença. Sob supervisão médica, existe terapêutica satisfatória usada na fase aguda, a qual deve ser instituída precocemente. Já na fase crônica, são utilizados recursos diversos a depender das complicações existentes.

             No caso da doença de Chagas, a prevenção é a melhor medida. Deve-se evitar contato com o “barbeiro”, visto que não se sabe qual deles pode estar contaminado com o T. cruzi e portadores do parasita, mesmo que assintomáticos, não podem doar sangue.

            Portanto, para erradicar a doença de Chagas, como medida de vigilâncias sanitária e epidemiológica, devem ser realizadas: eliminação do inseto transmissor ou manutenção do mesmo afastado do convívio humano.

 

Como diria o dr. Fernando Lianza Dias (cardiologista e cordelista): “Só se conhece a vitória/se todo mundo ajudar/ Aí chegará o dia/ Dessa doença acabar”.

 

 

Referências

Disponível em:

1.      <http://www.fiocruz.br/chagas/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?tpl=home>

2.      <http://www.drauziovarella.com.br/arquivo/arquivo.asp?doe_id=101>

3.      <http://portal.saude.gov.br>

4.      <http://www.infectologia.org.br>

5.      <http://www.manuaisdecardiologia.med.br/cmp/cardiomiopatia_Page322.htm>

6.      <http://www.medicinanet.com.br/conteudos/revisoes/1744/doenca_de_chagas.htm>

7.      <http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?151>

8.      <http://www.bvsdip.icict.fiocruz.br/php/index.php>

           (Acesso em 24 set. 2009)

9.      Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de Vigilância Epidemiológica. 6 ed. Brasília, 2005.

10.  Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. Consenso Brasileiro em Doença de Chagas. In: Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. v. 38 (suplemento III). 2005.

 

 

 *Maria do Bom Sucesso Lacerda Fernandes Neta

 (e-mail para contato: sucessomed@hotmail.com)

 

*Maria do Bom Sucesso Lacerda Fernandes Neta, mais conhecida como Cessinha, 21 anos, natural de Patos, filha dos empresários Francisco Fernandes da Silva Júnior e Zeneida Furtado Leite Fernandes, donos da Hiperfarma Bom Sucesso em Patos. Acadêmica do 7º período de medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Campina Grande.

Observação: texto publicado na “Revista Empresarial Marketing & Eventos”, na edição de out./nov. de 2009.


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